Reflexões

A Igreja deve ser um lugar de acolhimento, nunca de violência

Eu acredito em uma Igreja que acolhe, que estende a mão, que escuta antes de julgar e que reconhece a dignidade de cada ser humano.

Infelizmente, essa nem sempre é a experiência de todas as pessoas.

Ao longo da minha caminhada, encontrei pessoas LGBTQIA+ que carregam marcas profundas. Muitas já haviam sido rejeitadas pela própria família, perdido amizades, enfrentado preconceito em diferentes espaços e, quando buscaram uma comunidade de fé para reencontrar esperança, encontraram novas feridas.

Isso me entristece profundamente.

Nenhuma pessoa deveria sentir que precisa esconder quem é por medo da humilhação, da rejeição ou da violência. Nenhuma pessoa deveria sair de um lugar de oração carregando mais culpa, mais vergonha ou mais dor do que quando entrou.

Quando a fé deixa de acolher e passa a ferir

A fé deveria ser uma fonte de esperança, cuidado e acolhimento. Quando uma pessoa procura uma comunidade religiosa em busca de apoio e encontra rejeição, o espaço que deveria oferecer conforto pode se transformar em mais uma fonte de sofrimento.

Quando a linguagem da fé é utilizada para humilhar, constranger, ameaçar ou justificar qualquer forma de violência, estamos diante de uma realidade que precisa ser enfrentada com coragem.

Nenhuma diferença de pensamento pode servir como justificativa para retirar de alguém sua dignidade.

O acolhimento na Igreja não significa que todas as pessoas precisam pensar da mesma maneira. Significa reconhecer que cada ser humano merece ser tratado com respeito, independentemente de sua orientação sexual, identidade, história ou convicções.

Violência psicológica e violência espiritual também precisam ser enfrentadas

A violência nem sempre deixa marcas visíveis.

A violência psicológica também pode assumir uma dimensão espiritual quando transforma o medo em instrumento de controle e faz com que pessoas se sintam indignas do amor de Deus.

Quando alguém é constantemente submetido à culpa, à vergonha, à ameaça ou ao medo de ser rejeitado por Deus, estamos diante de uma forma de sofrimento que não pode ser ignorada.

A fé não deveria ser utilizada para destruir a autoestima de ninguém ou para convencer uma pessoa de que ela não merece amor, respeito e dignidade.

Como pastora, acredito que precisamos ter coragem para reconhecer essas situações e construir comunidades de fé capazes de oferecer escuta, cuidado e proteção.

Igrejas devem ser espaços seguros e de acolhimento

Como pastora, eu acredito que nossas igrejas precisam ser espaços seguros. Lugares onde as pessoas possam ser recebidas com respeito, escutadas com sensibilidade e tratadas com humanidade.

O acolhimento não elimina as diferenças de pensamento que existem entre as pessoas e entre as próprias igrejas, mas exige que essas diferenças jamais sirvam de justificativa para o ódio, para a humilhação ou para qualquer forma de violência.

Uma comunidade de fé pode ter suas convicções, suas tradições e suas interpretações teológicas. Mas nenhuma dessas diferenças deveria autorizar a desumanização de quem pensa ou vive de maneira diferente.

Eu acredito em comunidades de fé onde ninguém precise escolher entre sua espiritualidade e sua própria dignidade.

Combater a LGBTfobia é defender a dignidade humana

Também acredito que combater a LGBTfobia e toda forma de intolerância religiosa é um compromisso com a dignidade humana e com a liberdade de consciência.

Esses princípios fortalecem uma sociedade democrática e protegem o direito de cada pessoa viver sua fé — ou sua ausência de fé — com respeito.

Não podemos falar de liberdade religiosa sem falar também de liberdade de consciência. A mesma sociedade que protege o direito de alguém professar sua fé precisa proteger o direito de outra pessoa não professar nenhuma.

Por isso, defender o respeito à diversidade não é abandonar a fé. Para mim, é justamente colocá-la em prática.

Eu acredito em uma Igreja que acolhe, que escuta e que reconhece a humanidade de cada pessoa.

Uma Igreja onde o amor ao próximo não seja apenas uma palavra pregada nos púlpitos, mas uma prática vivida todos os dias.

Porque a fé que transforma vidas nunca deveria ser usada para destruir a vida de ninguém.