Durante muito tempo, disseram às mulheres que elas precisavam dar conta de tudo.
Cuidar dos filhos. Trabalhar. Organizar a casa. Estar emocionalmente disponíveis para a família. Construir uma carreira. Ser fortes o tempo inteiro.
Quando essa conta não fecha, muitas acabam acreditando que falharam.
Mas a verdade é que ninguém deveria carregar sozinho o peso que pertence à sociedade inteira.
Ao longo da minha caminhada como pastora e psicóloga, ouvi histórias de mulheres que vivem exaustas. Mulheres que acordam antes do amanhecer, enfrentam longos deslocamentos, trabalham fora, voltam para casa e iniciam uma segunda jornada de cuidados. Muitas vezes, sem tempo para descansar, estudar ou cuidar da própria saúde.
Essa realidade não é resultado de uma falha individual. Ela também revela a forma como nossa sociedade distribui o trabalho do cuidado.
Quando cuidar de tudo vira uma segunda jornada
Por muito tempo, o cuidado com os filhos, a casa e os familiares foi tratado como uma responsabilidade naturalmente feminina. Mesmo quando as mulheres passaram a ocupar cada vez mais espaço no mercado de trabalho, muitas continuaram responsáveis pela maior parte das tarefas domésticas e do cuidado dentro de casa.
Essa sobrecarga feminina limita oportunidades. Uma mulher que passa boa parte do seu tempo cuidando de outras pessoas tem menos tempo para estudar, trabalhar, empreender, descansar ou simplesmente cuidar de si.
É preciso reconhecer que o cuidado sustenta a sociedade. E justamente por isso ele não pode continuar sendo invisibilizado ou tratado como uma obrigação exclusiva das mulheres.
Mães solo e a importância de uma rede de apoio
Essa realidade se torna ainda mais desafiadora para milhares de mulheres que criam seus filhos sozinhas.
Fortalecer uma rede de apoio para mães solo significa reconhecer que elas não podem enfrentar todos esses desafios isoladamente. Família, comunidade e poder público têm responsabilidades compartilhadas quando falamos do desenvolvimento das crianças e da proteção das mulheres.
Nenhuma mãe deveria precisar enfrentar sozinha todas as demandas financeiras, emocionais e práticas relacionadas à criação dos filhos.
Uma sociedade que realmente valoriza a infância precisa também criar condições para que as mulheres responsáveis por essas crianças tenham apoio, segurança e oportunidades.
Creches também são políticas de autonomia para as mulheres
Também é impossível discutir igualdade de oportunidades sem falar sobre o acesso à educação infantil.
As creches não representam apenas um serviço para as crianças. Elas ampliam as possibilidades para que mães possam estudar, trabalhar, empreender e construir autonomia financeira, sabendo que seus filhos estão em um ambiente seguro e acolhedor.
Cuidar da infância também é cuidar das mulheres.
Quando uma mãe encontra uma vaga em uma creche de qualidade, ela ganha não apenas um serviço para seu filho. Ela ganha tempo e possibilidade de escolher os caminhos que deseja construir para sua própria vida.
Por isso, ampliar o acesso às creches deve ser entendido também como uma política de igualdade de oportunidades e de autonomia para as mulheres.
O cuidado também é responsabilidade do Estado
Essa discussão faz parte de um problema maior: a chamada economia do cuidado.
Quando cuidar dos filhos, da casa e de familiares recai principalmente sobre as mulheres, estamos falando de um trabalho essencial para o funcionamento da sociedade, mas que muitas vezes permanece invisível e sem o devido reconhecimento.
Acredito que uma sociedade mais justa é aquela que compreende que o cuidado não pode ser uma responsabilidade exclusiva das mulheres.
O cuidado precisa ser compartilhado entre famílias, comunidades, empresas e Estado.
Quando investimos em políticas públicas de cuidado que ampliam o acesso às creches, fortalecem a assistência social, qualificam os serviços de saúde e valorizam o trabalho do cuidado, estamos criando condições para que mais famílias vivam com dignidade.
Isso também significa reconhecer que políticas para as mulheres não podem se limitar a ações específicas. Elas precisam estar presentes nas políticas de educação, saúde, assistência social, trabalho e desenvolvimento econômico.
Prosperidade também é ter tempo para viver
Prosperidade também significa ter tempo para viver, oportunidades para crescer e apoio para enfrentar os desafios da vida.
Nenhuma mulher deveria precisar escolher entre cuidar dos filhos e realizar seus próprios sonhos.
Uma política comprometida com o cuidado é aquela que trabalha para que todas as mulheres possam exercer seus direitos, construir autonomia e viver com dignidade.
Cuidar não pode significar desaparecer.
Uma sociedade que compartilha o cuidado é uma sociedade que amplia as possibilidades de todas as pessoas. E garantir que as mulheres tenham tempo, apoio e oportunidades para construir seus próprios caminhos também é uma forma de construir um futuro mais justo.