Reflexões

Estado laico e liberdade religiosa: minha fé me ensina a defender a liberdade de todas as pessoas

Eu sou pastora. Minha fé faz parte da minha história, da minha caminhada e da forma como enxergo o mundo. Foi ela que me ensinou o valor do amor ao próximo, da justiça e do cuidado com quem mais precisa.

Talvez por isso eu acredite, com tanta convicção, na importância de um Estado laico e na defesa da liberdade religiosa para todas as pessoas.

Defender um Estado laico não significa defender um Estado sem fé. Significa defender um Estado que respeita todas as pessoas, independentemente da religião que professam ou da decisão de não professar nenhuma. É garantir que ninguém seja privilegiado ou discriminado por causa de sua crença.

Por que defender um Estado laico é defender a liberdade religiosa?

O Estado laico é uma garantia de que diferentes crenças possam existir e conviver em uma sociedade democrática. Ele não impede que as pessoas tenham fé, nem diminui a importância da religião na vida de quem acredita.

Pelo contrário: a proteção do Estado laico fortalece a própria liberdade religiosa.

Porque a fé só faz sentido quando é vivida com liberdade, nunca quando é imposta.

Em uma democracia, o Estado deve garantir que cada pessoa possa viver sua espiritualidade, sua consciência e suas convicções sem medo de perseguição ou discriminação. Isso significa proteger tanto quem professa uma religião quanto quem decide não professar nenhuma.

A liberdade religiosa não pode ser um privilégio concedido apenas a determinados grupos. Ela precisa ser um direito garantido a todas as pessoas.

Combater o racismo institucional e o racismo religioso

Infelizmente, ainda convivemos com diferentes formas de discriminação.

O racismo institucional continua limitando oportunidades, silenciando vozes e produzindo desigualdades profundas. Ao mesmo tempo, muitas pessoas ainda enfrentam o racismo religioso e a intolerância simplesmente por manifestarem sua espiritualidade, especialmente aquelas que pertencem às religiões de matriz africana.

Isso precisa mudar.

Nenhuma pessoa deveria ser ofendida, perseguida, impedida de exercer sua fé ou sofrer violência por causa de sua religião. Assim como nenhuma instituição deveria reproduzir práticas discriminatórias que negam a igualdade e a dignidade de quem somos.

Combater o racismo institucional exige compromisso com políticas públicas que ampliem oportunidades, enfrentem desigualdades e promovam igualdade de tratamento.

Combater o racismo religioso exige coragem para reconhecer que o respeito à diversidade de crenças não é uma concessão: é um direito.

Defender a liberdade religiosa também significa reconhecer que a intolerância religiosa não atinge todas as pessoas da mesma maneira. Quando uma tradição religiosa é historicamente marginalizada e seus símbolos, práticas e espaços de culto são alvo de violência ou preconceito, estamos diante de uma questão que precisa ser enfrentada pelo Estado e por toda a sociedade.

Fé, diversidade e compromisso com a democracia

Eu acredito que a fé nunca deve ser usada para justificar preconceitos ou alimentar divisões. Pelo contrário. Ela deve inspirar pontes, diálogo e compromisso com a justiça.

O Brasil é um país plural. Essa diversidade não é uma ameaça; é uma riqueza que merece ser protegida.

Defender a diversidade religiosa é defender uma sociedade em que ninguém precise esconder aquilo em que acredita para ser respeitado. É garantir que diferentes tradições religiosas possam ocupar o espaço público sem que uma delas seja colocada acima das outras.

Como pastora, seguirei vivendo a minha fé. Como representante do povo, defenderei o direito de cada pessoa viver a sua consciência, sua espiritualidade e sua identidade com liberdade, segurança e respeito.

Porque uma democracia forte não escolhe quais crenças merecem proteção.

Ela protege todas as pessoas, sem exceção.